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Administrar um supermercado exige controlar muito mais do que o volume que passa pelos caixas, uma loja pode vender mais e, ainda assim, perder rentabilidade por excesso de estoque, quebras, perecibilidade, promoções mal calculadas ou margens diferentes entre departamentos.
Para Vanderlei Goulart, contador e diretor presidente da Meta Assessoria Empresarial, empresa especializada em soluções contábeis, fiscais e de gestão para supermercados e comércios, é justamente por reunir milhares de produtos e variáveis operacionais que o setor não pode ter sua contabilidade tratada como a de qualquer outro comércio.
"O supermercadista pode olhar para uma loja cheia, acompanhar o faturamento crescendo e imaginar que o negócio está melhorando. Mas, se não souber o que aconteceu com margem, estoque, perdas e despesas, pode estar vendendo mais sem transformar esse movimento em resultado", afirma Goulart.
A complexidade começa na quantidade e na diversidade de mercadorias. Uma mesma loja reúne alimentos, bebidas, produtos de higiene e limpeza, itens de bazar, perecíveis e outras categorias, com características comerciais e fiscais distintas. Ao mesmo tempo, cada departamento tem dinâmica própria de compra, venda, giro e rentabilidade.
Isso significa que olhar apenas para o faturamento consolidado pode esconder diferenças importantes dentro da loja. Açougue, padaria, hortifrúti, mercearia e bebidas, por exemplo, possuem estruturas de custos, margens e níveis de perdas diferentes. Um departamento pode vender muito e contribuir pouco para o resultado, enquanto outro, com participação menor na receita, pode ter peso relevante na rentabilidade.
"Duas lojas podem faturar valores semelhantes e chegar a resultados completamente diferentes porque compram de formas distintas, têm níveis diferentes de perda, trabalham margens diferentes ou administram o estoque com mais ou menos eficiência. A contabilidade precisa ajudar a explicar essas diferenças", ressalta o especialista.
Estoque parado também custa dinheiro
Outro ponto sensível está no inventário. Mercadoria comprada em excesso imobiliza recursos que poderiam estar disponíveis no caixa. Nos perecíveis, o problema ganha outra dimensão, porque o tempo de venda é limitado e parte do estoque pode perder valor ou sequer chegar ao consumidor.
Quebras, vencimentos, problemas de armazenamento, diferenças de inventário e desperdícios precisam ser identificados para que o gestor entenda quanto da margem projetada realmente permaneceu no negócio. A própria pesquisa da ABRAS de 2026 aponta a eficiência operacional como uma frente diretamente relacionada ao controle de perdas e ao desempenho de departamentos como frutas, legumes e verduras e açougue.
"Perda não é apenas aquilo que vai para o lixo. Estoque mal dimensionado também custa dinheiro. Quando a empresa compra acima da necessidade, demora para girar a mercadoria ou não identifica corretamente uma quebra, parte do capital fica presa na operação. Se gestão, estoque e contabilidade não conversarem, o empresário demora a enxergar onde o resultado está escapando", explica Goulart.
Nem toda promoção que vende mais dá mais resultado
A mesma atenção vale para promoções e bonificações comerciais, pois reduzir preços pode aumentar o volume vendido e o fluxo de consumidores, mas isso não significa, necessariamente, melhorar o resultado da operação. Antes da campanha, é preciso saber quanto aquele produto custa efetivamente, qual margem suporta o desconto e qual será o impacto da ação sobre a rentabilidade.
As bonificações negociadas com fornecedores também interferem nessa conta. Quando essas condições não são registradas e interpretadas corretamente, o gestor corre o risco de formar preços ou avaliar o desempenho de uma categoria a partir de um custo que não representa a realidade da compra.
"Preço não deveria ser definido apenas olhando o concorrente ou aplicando um percentual sobre o custo. O supermercadista precisa conhecer a margem necessária para sustentar a operação e entender o efeito de descontos, perdas, despesas e tributos sobre aquele produto ou departamento", aponta.
É justamente nessa etapa que a integração das informações se torna decisiva. Compras, estoque, fiscal, financeiro e contabilidade precisam trabalhar sobre dados coerentes. Quando cada área possui um número diferente para a mesma operação, a divergência deixa de ser apenas administrativa e pode chegar à decisão sobre preço, compra, promoção ou reposição.
Reforma Tributária aumenta a atenção sobre os cadastros
Essa necessidade ganha peso em 2026, primeiro ano de testes da CBS e do IBS dentro do cronograma da Reforma Tributária do consumo. A transição seguirá de forma gradual nos próximos anos, com a substituição dos tributos atuais pelo novo modelo.
Para os supermercados, a mudança exige atenção principalmente à qualidade dos cadastros e à integração entre sistemas. Em uma operação com grande quantidade de SKUs, informações incorretas sobre produtos podem se multiplicar por milhares de vendas e afetar tanto o cumprimento das obrigações fiscais quanto a leitura gerencial do negócio.
"A Reforma Tributária coloca os cadastros e os processos sob uma lupa, mas o supermercado já precisava dessa organização antes dela. Fiscal, contabilidade, compras, estoque e gestão não podem funcionar como ilhas. Uma informação errada em uma ponta pode chegar à formação de preço e influenciar uma decisão comercial", diz Goulart.
Para o especialista, a principal diferença está entre ter uma contabilidade voltada somente ao cumprimento das obrigações e usar as informações produzidas por ela para entender a operação.
Além de apurar tributos e atender às exigências fiscais, os números podem ajudar a responder perguntas diretamente ligadas ao dia a dia do dono do supermercado: quais departamentos entregam margem, onde as perdas estão crescendo, quanto dinheiro está imobilizado em estoque, quais promoções deram retorno e onde a rentabilidade está sendo consumida.
"O fechamento contábil não deveria apenas dizer ao empresário o que aconteceu. Ele precisa ajudar a entender por que aconteceu. Quando o supermercadista consegue ligar os números à rotina da loja, a contabilidade deixa de ser somente uma obrigação e passa a apoiar decisões de compra, preço, estoque e crescimento", conclui.
Sobre Vanderlei Goulart
Vanderlei Goulart é fundador, CEO e diretor-presidente da Meta Assessoria Empresarial, contador, perito contábil e consultor empresarial, com pós-graduação em Auditoria e Perícia e mais de 30 anos de atuação no mercado. Atua no suporte estratégico a empresas nas áreas de gestão contábil, fiscal, trabalhista e planejamento empresarial, com foco em tomada de decisão, eficiência operacional e sustentabilidade financeira dos negócios.
Também é instrutor da Associação Gaúcha de Supermercados (AGAS), onde ministra treinamentos sobre gestão de crise, finanças e capacitações voltadas aos níveis tático e estratégico do varejo. É fonte para comentar temas relacionados a tributação, ambiente de negócios, varejo, gestão empresarial e impactos econômicos no setor produtivo .
Sobre a Meta Contabilidade
A Meta Assessoria Empresarial é uma empresa especializada em soluções contábeis, fiscais e de gestão, com atuação direcionada ao desenvolvimento de negócios. A companhia atende empresários de diferentes segmentos, com presença relevante no varejo supermercadista, oferecendo suporte estratégico para organização e crescimento das operações.
Nos últimos anos, estruturou um modelo que integra contabilidade, tecnologia e gestão, com foco em eficiência operacional e apoio à tomada de decisão. A empresa também atua na formação de lideranças e na capacitação de gestores, conectando conhecimento técnico à aplicação prática dentro das empresas.
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