![]() |
O avanço acelerado da inteligência artificial tem provocado uma mudança silenciosa na forma como profissionais de diferentes gerações e setores encaram a própria carreira. Segundo o Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum, 39% das competências atuais dos trabalhadores serão transformadas ou se tornarão desatualizadas entre 2025 e 2030. Na prática, se a força de trabalho mundial fosse representada por 100 pessoas, 59 precisariam de algum tipo de treinamento até o fim da década e 11 delas poderiam não ter acesso a essa oportunidade.
Os números ajudam a explicar um movimento que vai além da automação de tarefas: o receio de ficar para trás. Para especialistas em desenvolvimento humano e liderança, esse temor não é apenas sobre perder o emprego para uma máquina, mas sobre a percepção de que anos de conhecimento acumulado podem, de repente, deixar de ser suficientes uma questão que envolve confiança, empregabilidade e preparo, não apenas tecnologia e produtividade.
Para Joana Moreira, executiva de RH com atuação regional na América Latina e reconhecida entre as Top 50 Female Leaders Brazil 2026, o medo da inteligência artificial raramente é sobre a tecnologia em si. Com uma trajetória que passou pela cultura, pelo comércio exterior, pelas finanças e pelos setores automotivo, de aviação e de mineração antes de chegar ao RH, a executiva defende que a ameaça sentida pelos profissionais é, na verdade, identitária: a sensação de que aquilo que sustentou anos de reputação profissional pode, de repente, deixar de ser suficiente.
"Os planos de adoção da IA limitados a funcionalidades ignoram essa dimensão emocional. O medo da IA raramente é medo da tecnologia. É medo da obsolescência", afirma.
A seguir, a especialista aponta cinco motivos pelos quais o avanço da inteligência artificial está redesenhando a forma como os profissionais enxergam a própria carreira e quais competências humanas ganham ainda mais peso nesse cenário.
1. A ameaça percebida é biográfica, não apenas operacional
Para Joana, essa mudança altera a própria natureza da ameaça sentida pelos profissionais:
"O medo da IA raramente é medo da tecnologia. É medo da obsolescência. O receio real é descobrir que aquilo que levou anos para ser construído pode deixar de ser suficiente. Durante décadas, construímos a ideia de competência em torno de respostas: conhecer o processo, dominar a técnica e ser a pessoa a quem todos recorrem. Quando uma máquina executa em segundos parte do trabalho que sustentava essa reputação, a ameaça deixa de parecer apenas operacional. Ela se torna biográfica", afirma.
2. Não existe gap geracional de IA existe gap de aprendizagem
A pesquisa Bridging the Generational AI Gap, da London School of Economics em parceria com a Protiviti, ouviu quase 3 mil trabalhadores e 240 executivos: entre os treinados em IA, 93% já usavam a tecnologia no trabalho e economizavam em média 11 horas semanais, contra 57% e cinco horas entre os não treinados.
"Não existe um gap geracional de IA. Existe um gap de aprendizagem. Talvez estejamos chamando de resistência geracional aquilo que, na verdade, é ausência de oportunidade", afirma a especialista.
3. Segurança psicológica é a infraestrutura da aprendizagem
Para Joana, a falta desse ambiente produz dois comportamentos de risco:
"Pessoas não aprendem quando cada pergunta ameaça sua reputação. A falta de segurança psicológica produz dois extremos: a recusa silenciosa e o uso clandestino. Alguns evitam experimentar por medo de parecer despreparados; outros recorrem à IA sem transparência, governança ou revisão humana porque não se sentem autorizados a testar abertamente. Segurança psicológica não significa reduzir a régua. Significa poder perguntar, testar, contestar uma resposta e aprender com um erro antes que ele cresça", destaca.
4. Quanto mais tecnologia, mais valor ganham as competências humanas
O mesmo relatório do World Economic Forum que aponta IA e big data entre as competências de crescimento mais rápido mantém o pensamento analítico no topo, ao lado de resiliência, empatia, escuta ativa e aprendizagem contínua.
"Passamos anos acreditando que a inteligência artificial diminuiria o valor das pessoas. Talvez estejamos descobrindo exatamente o contrário. A IA pode identificar a palavra 'saudade'; não carrega a ausência que lhe dá densidade. Pode gerar acolhimento em palavras; não constrói, por si só, confiança. Por isso, chamar essas capacidades de soft skills já não faz sentido. Elas são a infraestrutura humana do negócio: em um mundo no qual conhecimento e produção de conteúdo se tornam abundantes, julgamento, confiança e significado se tornam escassos. E tudo o que é escasso ganha valor", avalia.
5. A carreira do futuro não será uma linha reta
A própria trajetória de Joana passou pela cultura, pelo comércio exterior, pelas finanças e pelos setores automotivo, de aviação e de mineração antes do RH:
"Eu não abandonei essas experiências ao mudar de área; aprendi a recombiná-las. É assim que deveríamos pensar a requalificação. Empregabilidade não será sinônimo de currículo linear nem de domínio permanente de uma ferramenta. Será traduzir experiências para problemas novos, aprender com velocidade, desaprender com humildade e preservar o julgamento quando a resposta mais rápida não for a melhor", ressalta.
Fonte:
Os artigos aqui apresentados representam a opinião do autor, não cabendo ao Guia dos Contadores responsabilidade pelos mesmos.