![]() |
A inteligência artificial começa a provocar uma mudança mais estrutural no comércio digital. Se hoje grande parte da infraestrutura de vendas foi construída para receber um consumidor que pesquisa, acessa um marketplace ou loja, escolhe um produto e conclui o pagamento, o avanço dos agentes de IA pode inverter parte dessa dinâmica.
No chamado comércio mediado por agentes de inteligência artificial, o consumidor pode informar uma intenção e estabelecer parâmetros como preço, características do produto, prazo ou limite de gasto. A partir daí, um algoritmo pode pesquisar opções, comparar alternativas, selecionar uma oferta e, dependendo do nível de autonomia concedido, avançar até a execução da compra.
Nos últimos meses, empresas globais de pagamentos aceleraram iniciativas nessa direção. Em março, Santander e Visa anunciaram transações piloto de comércio agêntico em cinco mercados da América Latina, incluindo o Brasil. Em julho, a Visa informou que agentes de IA já estavam realizando compras em ambientes comerciais reais na Europa, escolhendo produtos e iniciando pagamentos a partir de regras definidas pelos consumidores.
A transformação, portanto, não está apenas em retirar etapas do checkout. Ela muda a origem da própria jornada. Em vez de uma infraestrutura preparada para capturar e converter uma intenção manifestada diretamente pelo consumidor, o comércio passa a precisar responder também a sistemas capazes de interpretar essa intenção e agir em nome dele.
"Quando um algoritmo recebe uma intenção, compara alternativas e pode executar diferentes etapas da jornada, a infraestrutura deixa de responder apenas ao comportamento direto de uma pessoa. Ela passa a precisar reconhecer quem está agindo, quais permissões foram concedidas, até onde aquele agente pode ir e em quais condições uma transação deve ou não ser realizada", afirma Rodrigo Graça de Melo, vice-presidente de Produtos e Negócios da Multipagamentos.
Essa mudança acrescenta novas dimensões a desafios que o setor de pagamentos já conhece. Capacidade e velocidade de processamento continuam relevantes, mas passam a dividir espaço com questões como autenticação, identidade do agente, prevenção a fraudes, definição de fronteiras de atuação, registro de consentimento, limites financeiros e transacionais e rastreabilidade das decisões.
Também surge uma discussão sobre responsabilização. Em uma compra tradicional, é relativamente simples identificar a ação que levou à autorização da operação. Em uma jornada automatizada, será necessário registrar quais parâmetros foram estabelecidos pelo usuário, como o agente interpretou essas condições e quais decisões foram tomadas até a conclusão da compra.
"O ponto não é apenas provar que houve uma autorização. Será necessário conseguir reconstruir a lógica daquela transação. Quanto maior a autonomia do agente, mais importante se torna saber quais limites ele recebeu, por que uma determinada opção foi escolhida e como tratar situações em que o resultado foge do esperado", explica Rodrigo.
A mudança também pode afetar a maneira como empresas desenham produtos, estruturam canais de aquisição e disputam a atenção do consumidor. Se parte da pesquisa e da comparação passa a ser realizada por algoritmos, marcas e varejistas terão de pensar não apenas em como convencer uma pessoa, mas também em como disponibilizar informações, ofertas e condições comerciais que possam ser interpretadas por sistemas automatizados.
No pagamento, essa complexidade cresce quando diferentes alternativas estão disponíveis para uma mesma compra. Cartões, Pix, carteiras digitais e outras modalidades possuem regras próprias de autorização, liquidação, segurança e tratamento de falhas. Em uma jornada executada por agentes, a escolha entre essas opções pode passar a ocorrer de forma cada vez mais dinâmica.
É nesse ponto que a orquestração de pagamentos tende a assumir uma função mais estratégica. Além de conectar diferentes provedores, a infraestrutura pode precisar avaliar contexto, regras comerciais, disponibilidade, custos, limites e características de cada meio de pagamento para definir como uma operação deve ser processada, equilibrando experiência do usuário e estratégia operacional.
"O pagamento automatizado por agentes de IA não é apenas uma nova forma de finalizar uma compra. Ele pode transformar comportamento de consumo, canais de venda, modelos de segurança e a própria arquitetura do comércio digital. Para que a experiência se torne mais autônoma na ponta, será necessária uma infraestrutura muito mais preparada para tomar decisões, registrar responsabilidades e responder a exceções em tempo real", conclui Rodrigo.
Fonte:
Os artigos aqui apresentados representam a opinião do autor, não cabendo ao Guia dos Contadores responsabilidade pelos mesmos.