21/08/2026
Dívidas e processos: qual foi a herança da pandemia para os empreendedores?

Passivos acumulados desde 2020 ainda afetam crédito, reputação e capacidade de investimento de pequenos e médios negócios

A fase mais grave da pandemia terminou há alguns anos, as restrições foram retiradas e o mercado retomou sua rotina. Para milhares de empresas brasileiras, porém, a crise sanitária ainda aparece nos balanços, nos contratos renegociados e nos processos judiciais. Empréstimos contratados para manter a operação, impostos adiados, conflitos trabalhistas e compromissos assumidos em um período de faturamento instável formaram um passivo que não desapareceu com a reabertura da economia.

Na avaliação de Ricardo Jacobs, empreendedor, investidor e empresário, tratar esse histórico como uma falha isolada contribui para uma visão distorcida sobre quem atravessou aquele período. Muitos negócios sobreviveram porque recorreram ao crédito, renegociaram obrigações ou adiaram pagamentos. A decisão preservou empresas e empregos, mas também comprometeu o caixa dos anos seguintes.

O retrato atual não permite atribuir toda a inadimplência empresarial à pandemia, mas dimensiona a pressão financeira que continua sobre o setor. O Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian, levantamento que acompanha compromissos vencidos e não pagos por pessoas jurídicas, mostra que o Brasil encerrou 2025 com 8,9 milhões de empresas inadimplentes e R$ 213 bilhões em dívidas negativadas. Desse total, 8,5 milhões eram micro e pequenos negócios, responsáveis por R$ 185,4 bilhões em débitos.

O problema também atinge empresas conhecidas nacionalmente. Em entrevista ao UOL Líderes, Caíto Maia, fundador da Chilli Beans, afirmou que a companhia ainda enfrenta uma dívida contraída para atravessar a pandemia. Segundo o empresário, o crédito foi tomado quando os juros estavam entre 2% e 3%, mas passou a pesar sobre a operação em um ambiente de taxas muito mais altas.

A experiência relatada por Jacobs segue uma lógica semelhante. “Ficamos dois anos sustentando funcionários em casa e mantendo os salários. Para conseguir fazer isso, usamos as reservas disponíveis e recorremos à alavancagem bancária. Hoje ainda pagamos contas trabalhistas, impostos e respondemos juridicamente por parte das consequências daquele período”, afirma.

A concentração entre empresas menores ajuda a explicar a longa duração do problema. Negócios desse porte costumam ter menos reservas, dependem mais do capital de giro e encontram maior dificuldade para substituir uma dívida cara por outra com condições melhores. Quando o faturamento retorna, parte da receita já está comprometida com parcelas, juros, fornecedores e acordos anteriores. A empresa pode estar operando e vendendo, mas permanece financeiramente alavancada.

O próprio Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte mantém a possibilidade de renegociação de dívidas do Pronampe, programa de crédito criado durante a crise sanitária e posteriormente transformado em política permanente. A medida alcança desde microempreendedores individuais até empresas de pequeno porte e evidencia que a recuperação do setor exige prazos compatíveis com a capacidade real de pagamento.

O tema também chegou aos tribunais. Discussões com bancos, fornecedores, proprietários de imóveis, consumidores e antigos funcionários podem continuar abertas durante anos, mesmo quando a empresa já reorganizou sua atividade. A existência de um processo, por si só, não comprova irregularidade, culpa ou insolvência. Ainda assim, mecanismos de busca frequentemente exibem o registro sem explicar a origem da disputa, a fase processual ou as providências adotadas pelo empresário.

“Muitos empreendedores pesquisam o próprio nome, encontram dívidas ou processos e sentem que aquele problema aconteceu apenas com eles. A pandemia deixou negócios alavancados com bancos e também criou passivos jurídicos que continuam presentes na realidade empresarial”, afirma Jacobs. Para ele, reconhecer esse contexto ajuda a substituir o constrangimento por uma discussão mais madura sobre recuperação, responsabilidade e continuidade dos negócios.

A tentativa de apagar qualquer referência negativa da internet pode produzir um retrato incompleto e, em alguns casos, aumentar a desconfiança. A alternativa é contextualizar os fatos, manter informações atualizadas e demonstrar quais medidas foram tomadas. “Esses registros permitem falar sobre o que o empreendedor enfrentou e ainda carrega. Dar transparência ao processo torna essa realidade menos solitária para quem administra uma pequena ou média empresa”, diz o empreendedor.

A reorganização começa pelo mapeamento separado das obrigações bancárias, tributárias, trabalhistas e comerciais. Valor atualizado, taxa de juros, garantias oferecidas, estágio dos processos e impacto mensal no caixa precisam estar reunidos em um plano único, elaborado com apoio contábil e jurídico. Sem essa visão, acordos pontuais podem aliviar uma cobrança imediata e criar um novo desequilíbrio adiante.

Para quem ainda administra consequências iniciadas em 2020 ou 2021, a sobrevivência da empresa não encerrou a crise; apenas abriu uma etapa mais longa de recuperação. A reputação tende a ser preservada quando os problemas são acompanhados de contexto, documentos, acordos cumpridos e decisões coerentes. O passado judicial ou financeiro permanece visível, mas deixa de ser a única informação disponível sobre o negócio.

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