20/08/2026
O novo professor de finanças da geração Z cabe no celular

Conteúdos sobre educação financeira ganham espaço em TikTok, Instagram e YouTube, mas especialistas alertam que informação não necessariamente se transforma em melhores decisões financeiras

Mais de 74 milhões de brasileiros seguem inadimplentes, segundo levantamento divulgado pelo CNDL e SPC Brasil em 2026. Ao mesmo tempo, conteúdos sobre investimentos, organização financeira e construção de patrimônio acumulam milhões de visualizações diariamente em plataformas como TikTok, Instagram e YouTube. A contradição tem chamado a atenção de especialistas: nunca foi tão fácil acessar informações sobre dinheiro, mas os desafios relacionados ao planejamento financeiro e ao controle do orçamento continuam presentes na rotina de grande parte da população.

Para Ricardo Hiraki, especialista em educação financeira e CEO da Plano Fintech, empresa especializada em planejamento financeiro, organização do orçamento e educação financeira para famílias, o fenômeno revela uma mudança importante na forma como as pessoas constroem conhecimento sobre dinheiro. Temas que antes eram discutidos principalmente por consultores, bancos e instituições financeiras passaram a circular diariamente em vídeos curtos, podcasts e publicações de influenciadores, aproximando o assunto de públicos que tradicionalmente mantinham pouca relação com planejamento financeiro.

O avanço desse tipo de conteúdo acompanha uma mudança mais ampla no comportamento digital dos brasileiros. De acordo com o relatório Digital 2026, da DataReportal, o Brasil continua entre os países que mais consomem redes sociais no mundo, reforçando o papel dessas plataformas como fonte de informação para diferentes temas, incluindo finanças pessoais, investimentos e organização financeira.

Segundo Hiraki, o crescimento da educação financeira nas redes sociais representa um avanço relevante para a democratização do conhecimento, mas não elimina os riscos associados ao excesso de informação. “As redes sociais democratizaram o acesso à educação financeira, mas também criaram a impressão de que assistir a conteúdo sobre dinheiro é o mesmo que praticar educação financeira. Existe uma diferença importante entre conhecer conceitos e desenvolver hábitos financeiros consistentes”, afirma.

Mais informação financeira não significa mais educação financeira

A popularização dos chamados finfluencers ajudou a tornar assuntos antes considerados complexos mais acessíveis para milhões de pessoas. Conceitos como reserva de emergência, juros compostos, diversificação de investimentos e planejamento financeiro passaram a fazer parte das conversas cotidianas de uma parcela maior da população.

Ao mesmo tempo, a velocidade característica das redes sociais favorece a circulação de mensagens simplificadas, promessas de enriquecimento rápido e recomendações que nem sempre consideram a realidade financeira de cada indivíduo.

“Muitas pessoas conseguem explicar conceitos de investimento porque consomem conteúdo diariamente, mas ainda encontram dificuldade para organizar o próprio orçamento, construir uma reserva financeira ou manter disciplina nos gastos. O conhecimento financeiro se tornou mais acessível. O desafio agora é transformar informação em comportamento”, explica.

Na avaliação do especialista em educação financeira, um dos principais riscos está na confusão entre entretenimento e orientação financeira. Conteúdos produzidos para gerar engajamento costumam privilegiar histórias de sucesso, ganhos expressivos e estratégias de rápida execução, enquanto aspectos fundamentais da saúde financeira, como controle de despesas, planejamento de longo prazo e gestão de riscos, recebem menos atenção.

Outro ponto observado por ele é o excesso de referências simultâneas. A facilidade de acesso faz com que muitas pessoas acompanhem dezenas de criadores de conteúdo ao mesmo tempo, recebendo orientações diferentes sobre investimentos, consumo, crédito e construção de patrimônio.

“O excesso de informação pode gerar paralisia ou decisões impulsivas. Em vez de criar clareza, a pessoa passa a acumular opiniões conflitantes e perde a capacidade de construir uma estratégia compatível com seus objetivos financeiros. Educação financeira não é quantidade de conteúdo consumido. É capacidade de tomar decisões melhores de forma consistente”, afirma.

Para Hiraki, a tendência é que as redes sociais continuem exercendo papel relevante na disseminação da educação financeira nos próximos anos. O desafio estará em desenvolver senso crítico para avaliar informações, identificar fontes confiáveis e transformar aprendizado em prática.

“Os conteúdos financeiros podem ser um excelente ponto de partida para despertar interesse pelo tema. Mas a construção de uma vida financeira saudável continua dependendo de planejamento, disciplina e da capacidade de aplicar o conhecimento à realidade de cada pessoa. O patrimônio não é construído pelo que se assiste, mas pelo que se faz de forma recorrente”, conclui.

Sobre Ricardo Hiraki

Ricardo Hiraki é empreendedor e investidor em inovação e no mercado imobiliário. CEO e cofundador da Plano Fintech, é administrador com pós-graduação pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atuou por quase dez anos em posições de liderança na área financeira no ambiente corporativo, com foco em gestão, controle de custos e apoio à tomada de decisão executiva.

Desde a fundação da Plano, Hiraki passou a se dedicar à criação e ao investimento em negócios de impacto, com o objetivo de ampliar o acesso à saúde financeira no Brasil. Sua atuação está concentrada no desenvolvimento de soluções que combinam tecnologia, educação financeira e novos modelos de serviço, voltados à organização do orçamento, redução de dívidas e decisões financeiras mais conscientes.

Sobre a Plano Fintech

Fundada em 2018, a Plano Fintech é uma empresa de educação financeira que desenvolve soluções para pessoas que desejam organizar a vida financeira e tomar decisões mais conscientes sobre o uso do dinheiro. A empresa já apoiou mais de 200 mil brasileiros na redução de dívidas e no reequilíbrio financeiro.

A atuação da Plano combina plataforma digital com acompanhamento humano de educadores financeiros, permitindo a criação de planejamentos personalizados, identificação de excessos e estratégias práticas para redução de custos e despesas. Com presença em todo o Brasil, a fintech utiliza tecnologia, princípios de ESG e Open Finance para gerar impacto social em escala.

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Os artigos aqui apresentados representam a opinião do autor, não cabendo ao Guia dos Contadores responsabilidade pelos mesmos.


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