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Com a taxa Selic mantida em patamar elevado e o crédito mais caro para as empresas, a busca por liquidez se tornou uma prioridade para empresários brasileiros em 2026. Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada em janeiro deste ano, mostra que 80% das indústrias apontam as condições de acesso ao crédito como um dos principais obstáculos para investir e expandir operações.
Ao mesmo tempo, dados do Banco Central indicam que o custo das operações de crédito para pessoas jurídicas continua pressionado, elevando o peso financeiro das empresas que dependem de capital externo.
Para Murillo Oliveira, especialista em estruturação financeira internacional e Head of Treasury da Saygo, muitas companhias estão concentrando esforços na busca por financiamento, enquanto ignoram perdas financeiras que acontecem diariamente dentro da própria operação. “Existe uma preocupação legítima com juros, crédito e câmbio, mas poucas empresas calculam quanto dinheiro está sendo consumido por estoques excessivos, retrabalho, falhas operacionais e falta de previsibilidade financeira. Em muitos casos, esse custo invisível é maior do que o impacto do financiamento bancário”, afirma.
O dinheiro que fica preso dentro da empresa
A pressão sobre o caixa normalmente é associada a fatores externos, como juros, inflação ou desaceleração econômica. No entanto, especialistas em finanças corporativas alertam que parte relevante da perda de liquidez está relacionada a decisões tomadas dentro da própria organização.
Segundo o especialista, é comum encontrar empresas que contratam linhas de capital de giro enquanto mantêm recursos significativos imobilizados em estoques acima da necessidade, processos burocráticos ou ciclos financeiros mal estruturados. “Muitas organizações recorrem ao crédito para resolver problemas que nasceram dentro da operação. Quando isso acontece, elas passam a pagar juros por uma ineficiência que poderia ter sido eliminada com gestão, planejamento e acompanhamento de indicadores”, explica.
Na prática, isso significa que recursos que poderiam ser direcionados para expansão, inovação ou ganho de competitividade acabam comprometidos por desperdícios que raramente recebem atenção da alta gestão.
Capital travado aumenta dependência financeira
O problema se torna ainda mais sensível em setores que trabalham com cadeias de suprimentos complexas, importação, exportação, indústria e distribuição. Nessas atividades, qualquer atraso logístico, erro de planejamento ou excesso de estoque pode consumir milhões de reais em capital de giro.
O profissional observa que muitas empresas acompanham indicadores comerciais com frequência, mas não monitoram adequadamente o ciclo financeiro da operação. “Existe uma obsessão por faturamento, mas pouca atenção à velocidade com que o dinheiro retorna para o caixa. Uma empresa pode vender mais e ainda assim enfrentar dificuldades financeiras se os recursos continuam presos ao longo da operação”, afirma.
O executivo destaca que compras realizadas sem planejamento, recebimentos demorados e falta de integração entre áreas como financeiro, logística, compras e operações costumam ampliar a necessidade de capital externo. “Quando cada departamento toma decisões isoladamente, o resultado aparece no caixa. Uma compra feita no momento errado ou um estoque superdimensionado pode gerar um impacto financeiro muito maior do que uma variação pontual do câmbio ou dos juros.”
Eficiência operacional virou estratégia financeira
O aumento do custo do dinheiro vem levando empresas a olhar com mais atenção para eficiência operacional, produtividade e gestão financeira integrada. O objetivo é reduzir a dependência de crédito e liberar recursos já existentes dentro da própria estrutura.
Para Murillo, as empresas que conseguem crescer com mais consistência são aquelas que enxergam a operação como uma ferramenta de geração de caixa e não apenas de execução. “Hoje, a competitividade não depende apenas de vender mais. Depende de transformar recursos em resultado com mais velocidade, reduzir desperdícios e aumentar a previsibilidade financeira. A eficiência operacional deixou de ser apenas uma questão de produtividade e passou a ser uma estratégia financeira.”
Essa mudança de mentalidade também tem impulsionado investimentos em tecnologia, automação e inteligência de dados. Ferramentas capazes de integrar informações financeiras, logísticas e operacionais ajudam gestores a identificar gargalos antes que eles se transformem em problemas de liquidez.
A liquidez do futuro começa dentro da operação
Na avaliação dele, o ambiente econômico continuará exigindo disciplina financeira das empresas nos próximos anos. Por isso, a capacidade de identificar capital travado e corrigir ineficiências tende a se tornar um diferencial competitivo cada vez mais relevante. “Muitas empresas procuram dinheiro fora quando a primeira oportunidade está dentro da própria operação. Antes de buscar uma nova linha de crédito, vale analisar quanto capital está parado em processos ineficientes, estoques desnecessários ou falhas de gestão. Em muitos casos, essa resposta muda completamente a saúde financeira do negócio”, conclui.
Sobre Murillo Oliveira
Murillo Oliveira é Head of Treasury da Saygo Group, com atuação no mercado financeiro voltada à tesouraria, investimentos e estruturação financeira em contextos globais. Trabalha com gestão de caixa, ALM, portfolio management e estratégias de proteção cambial, participando de decisões que envolvem múltiplas moedas e exposição a cenários macroeconômicos voláteis.
Certificado como Certified Investment Manager (CGA e CFG), é formado pela Escola Politécnica da USP e alumni da Oxford Saïd Business School, com especialização em inteligência artificial e trading algorítmico. Ao longo da carreira, acumulou experiência em tesourarias e na indústria de fundos, desenvolvendo uma visão técnica e aplicada sobre mercados financeiros e fluxos internacionais de capital.
Sobre a Saygo
A Saygo é uma holding brasileira especializada em comércio exterior, formada pela unificação da Proseftur Assessoria em Comércio Exterior e da Zebra Corretora de Câmbio. Com mais de 23 anos de experiência, a empresa oferece soluções integradas para importadores e exportadores, abrangendo assessoria em operações internacionais, serviços cambiais e desenvolvimento de tecnologias para otimização de processos globais. Seu compromisso é auxiliar empresas a ingressarem e expandirem suas atividades no mercado internacional, proporcionando estratégias inovadoras e suporte especializado.
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