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A crise financeira mudou de endereço à medida que o avanço do endividamento no Brasil já alcança profissionais de alta renda, grupo historicamente associado à estabilidade patrimonial. Dados recentes da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostram crescimento das dívidas entre famílias que recebem mais de 10 salários mínimos, em um movimento que expõe um fenômeno cada vez mais comum, o de descontrole financeiro mascarado por salários elevados.
Para Ricardo Hiraki Maila, especialista em educação financeira, CEO e cofundador da Plano Fintech, empresa focada em organização financeira e educação para consumidores, o problema está longe de ser falta de dinheiro. “Existe uma crença perigosa de que renda alta automaticamente protege contra problemas financeiros. O que vemos na prática é justamente o contrário. Quando a renda cresce sem organização, o padrão de vida sobe junto, o consumo ganha força e a falsa sensação de controle se instala.”
Segundo a CNC, 69,3% das famílias brasileiras com renda superior a 10 salários mínimos estavam endividadas em fevereiro de 2026, alta em relação aos 65,5% registrados no mesmo período do ano anterior. O dado desmonta a lógica de que o endividamento está restrito às faixas de menor renda e revela uma mudança relevante no comportamento financeiro do brasileiro.
O movimento tem relação direta com um padrão conhecido no universo financeiro como lifestyle inflation, ou inflação do estilo de vida. Na prática, conforme a renda aumenta, crescem também os gastos com moradia, lazer, restaurantes, viagens, escola, assinaturas, compras parceladas e despesas recorrentes que muitas vezes passam despercebidas no orçamento.
“É a clássica situação da pessoa que ganha bem, mas não consegue explicar para onde o dinheiro foi. O problema não está necessariamente em grandes compras, mas no acúmulo de pequenas decisões mal administradas, parcelamentos que parecem inofensivos e um padrão de consumo que vai sendo normalizado”, afirma Hiraki.
O crédito exerce papel central nessa dinâmica, já que, segundo a CNC, o cartão de crédito permanece como principal vetor de endividamento das famílias brasileiras, presente em 83,8% dos casos registrados pela pesquisa. Entre consumidores de maior renda, a combinação entre limites mais elevados, facilidade de acesso a linhas de crédito e maior elasticidade de consumo pode distorcer a percepção real de capacidade financeira. Na prática, o acesso ampliado ao crédito frequentemente posterga a percepção de desequilíbrio orçamentário, permitindo a manutenção de um padrão de vida incompatível com a geração efetiva de caixa.
A digitalização dos meios de pagamento também contribui para esse descontrole. Com Pix, carteiras digitais e pagamentos instantâneos, a percepção imediata do gasto diminui. O dinheiro circula com mais velocidade, enquanto a sensação de esforço financeiro parece menor.
Como o endividamento atinge quem ganha mais
Na avaliação do CEO, a alta renda muitas vezes apenas posterga a percepção do problema.
“Quem ganha mais geralmente demora mais para perceber que perdeu o controle porque ainda consegue sustentar o padrão de vida por algum tempo, parcelar despesas, reorganizar vencimentos e manter acesso ao crédito. Quando o alerta chega, o impacto no fluxo de caixa, na capacidade de investir e até no patrimônio já pode ser relevante.”
Entre os sinais mais frequentes de desorganização financeira, ele destaca:
Educação financeira além da dívida
Para Hiraki, a educação financeira ainda é equivocadamente associada apenas a quem está inadimplente, quando deveria ser entendida como ferramenta de gestão patrimonial e tomada de decisão.
“Educação financeira não é sobre cortar pequenos prazeres ou viver com restrição. É sobre clareza, consciência e capacidade de decidir melhor. Ganhar bem sem organização continua sendo um risco financeiro real.”
A avaliação é que o novo perfil do endividamento brasileiro expõe menos um problema de renda e mais uma dificuldade crescente de administrar consumo, crédito e planejamento em uma rotina de decisões cada vez mais instantâneas.
Sobre Ricardo Hiraki
Ricardo Hiraki é empreendedor e investidor em inovação e no mercado imobiliário. CEO e cofundador da Plano Fintech, é administrador com pós-graduação pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atuou por quase dez anos em posições de liderança na área financeira no ambiente corporativo, com foco em gestão, controle de custos e apoio à tomada de decisão executiva.
Desde a fundação da Plano, Hiraki passou a se dedicar à criação e ao investimento em negócios de impacto, com o objetivo de ampliar o acesso à saúde financeira no Brasil. Sua atuação está concentrada no desenvolvimento de soluções que combinam tecnologia, educação financeira e novos modelos de serviço, voltados à organização do orçamento, redução de dívidas e decisões financeiras mais conscientes.
Sobre a Plano Fintech
Fundada em 2018, a Plano Fintech é uma empresa de educação financeira que desenvolve soluções para pessoas que desejam organizar a vida financeira e tomar decisões mais conscientes sobre o uso do dinheiro. A empresa já apoiou mais de 200 mil brasileiros na redução de dívidas e no reequilíbrio financeiro.
A atuação da Plano combina plataforma digital com acompanhamento humano de educadores financeiros, permitindo a criação de planejamentos personalizados, identificação de excessos e estratégias práticas para redução de custos e despesas. Com presença em todo o Brasil, a fintech utiliza tecnologia, princípios de ESG e Open Finance para gerar impacto social em escala.
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